Pedaços de Pessoa e pessoas...



Segunda-feira, Outubro 28, 2002



Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

(Clarice Lispector)

postado por: Cris 15:18

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Sábado, Outubro 26, 2002


    



O NASCIMENTO DO PRAZER
(trecho - Clarice Lispector)

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.


postado por: Cris 23:33

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Sexta-feira, Outubro 25, 2002



ABSURDO

Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino. Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo. Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.

(Bernardo Soares - O Livro do Desassossego)

postado por: Cris 15:04

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Quinta-feira, Outubro 24, 2002



Então, planando em pensamento por cima
de todo este continente que me é subordinado
sem saber, bebendo a luz de absinto que se
eleva, ébrio, enfim, de palavras más, sou feliz,
sou feliz, estou lhe dizendo, proíbo-o de não
acreditar que sou feliz, que morro de felicidade!
Ah, sol, praias, e as ilhas sob os alísios,
juventude cuja lembrança desespera!

(Albert Camus - A Queda)

postado por: Cris 12:56

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Terça-feira, Outubro 22, 2002



Primeiro Fausto
Segundo Tema

O HORROR DE CONHECER

III

Por que pois buscar
Sistemas vãos de vãs filosofias,
Religiões, seitas, (voz de pensadores),
Se o erro é condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro,
Da verdade há apenas uma idéia
A qual não corresponde realidade.

Crer é morrer; pensar é duvidar;
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo, mais sentido,
Mais (visto) que o usual do seu pensar.
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-se eternamente
Fraco no engano, (e assim) no desengano;
Quer na ilusão, quer na desilusão.

(Fernando Pessoa)

postado por: Cris 16:18

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Domingo, Outubro 20, 2002



Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

(Fragmentos de Alberto Caieiro)


postado por: Cris 20:17

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Quinta-feira, Outubro 17, 2002



"Há crimes de paixão e crimes de lógica.
O código penal distingue um do outro,
bastante comodamente, pela premeditação.
Estamos na época da premeditação e do crime perfeito.
Nossos criminosos não são mais aquelas crianças
desarmadas que invocavam a desculpa do amor.
São, ao contrario, adultos, e seu álibi é irrefutável:
a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para
transformar assassinos em juízes."

(Albert Camus - O Homem Revoltado)

postado por: Cris 16:02

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Domingo, Outubro 13, 2002



FRAGMENTOS

Me quer ? Não me quer ?
As mãos torcidas
Os dedos despedaçados um a um extraio
Assim tira a sorte enquanto no ar de maio
Caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
Que a prata dos anos tinja seu perdão penso
E espero que eu jamais alcance
A impudente idade do bom senso

Passa da uma você deve estar na cama
Você talvez sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
Com o relâmpago de mais um telegrama

O mar se vai
O mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
A canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
Da mútua dor mútua quota de dano

Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa
Para que acordar-te
Com relâmpago de mais um telegrama
Como se diz o caso está enterrado
A canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
Da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
Em horas como esta eu me ergo e converso
Com os séculos a história do universo

Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
E os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
Ressoa os séculos e os trens rastejam
Para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.

(Vladimir Maiakóvski)

postado por: Cris 16:41

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Quarta-feira, Outubro 09, 2002

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...)
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer(...)
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.(...)

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu(...)"

(Fragmentos de "A Tabacaria" Álvaro de Campos)

postado por: Cris 05:11

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