Pedaços de Pessoa e pessoas...



Quinta-feira, Novembro 28, 2002



Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ª feira...
Quando se vê, passaram 60 anos!


(666 - Mário Quintana)

postado por: Cris 00:21

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Domingo, Novembro 24, 2002


postado por: Cris 15:11

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Quinta-feira, Novembro 21, 2002


postado por: Cris 20:23

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Quarta-feira, Novembro 20, 2002


postado por: Cris 00:24

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Sábado, Novembro 16, 2002



Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

(Luís de Camões)

postado por: Cris 16:38

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Sexta-feira, Novembro 15, 2002




Acrobata da Dor
(Cruz e Souza)

Gargalha, ri, n'um riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, n'um riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dôr violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pédem-te bis e um bis não se despréza!
Vamos! retéza os musculos, retéza
Nessas macabras piruêtas d'aço...

E embóra cáias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente.
Ri! Coração, tristissimo palhaço

postado por: Cris 18:30

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Quinta-feira, Novembro 14, 2002




-Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

postado por: Cris 00:23

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Quarta-feira, Novembro 13, 2002


postado por: Cris 00:22

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Terça-feira, Novembro 12, 2002




Apontamento
(Álvaro de Campos - 1929)

A minha alma partiu-se
como um vaso vazio.
Caiu pela escada
excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços
do que havia louça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha
quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos
sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda
como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se
do parapeito da escada.
E fitam os cacos
que a criada deles fez em mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos
absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos,
não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes
à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria
atapetada de estrelas.
Um caco brilha,
virado do exterior lustroso,
entre os astros.
A minha obra?
A minha alma principal?
A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente,
pois não sabem por que ficou ali.

postado por: Cris 01:00

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tenho? mas quem é esse que tem? quem é que fala por mim? tenho um corpo e um espírito? eu sou um eu? "É exatamente isto, você é um eu", responde-me o mundo terrivelmente. E fico horrorizado. Deus não deve ser pensado jamais senão ele foge ou eu fujo. Deus deve ser ignorado e sentido. Então ele age. Pergunto-me: Por que Deus pede tanto que seja amado po nós? resposta possível: Porque assim nós amamos a nós mesmos e em nos amando, nós nos perdoamos. E como precisamos de perdão. Porque a própria vida já vem mesclada ao erro...

(Um Sopro de Vida - Pulsações, Clarice Lispector)

postado por: Cris 00:58

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Sábado, Novembro 09, 2002


postado por: Cris 18:31

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Clamando...
(Cruz e Souza)

Bárbaros vãos, dementes e terríveis
Bonzos tremendos de ferrenho aspecto,
Ah! deste ser todo o clarão secréto
Jamais poude inflammar-vos, Impassíveis!

Tantas guerras bizarras e incoerciveis
no tempo e tanto, tanto immenso affecto,
São para vós menos que um verme e insecto
Na corrente vital pouco sensiveis.

No entanto nessas guerras mais bizarras
De sol, clarins e rútilas fanfarras,
Nessas radiantes e profundas guerras...

As minhas carnes se dilaceraram
E vão, das Ilusões que flammejaram,
Com o próprio sangue fecundando as terras...

postado por: Cris 00:27

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Sexta-feira, Novembro 08, 2002





postado por: Cris 01:02

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Quinta-feira, Novembro 07, 2002

      

postado por: Cris 00:21

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Quarta-feira, Novembro 06, 2002



O Tempo
(Mário Quintana)

O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o tempo.
O tempo não pode viver sem nós,
para não parar.
E todas as manhãs
nos chama freneticamente
como um velho paralítico
a tocar a campainha atroz.
Nós é que vamos empurrando,
dia a dia, sua cadeira de rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
Os amantes
Os bêbados
podem fugir por instantes ao Velho...
Mas que raiva impotente dá no Velho
quando encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas
a sua cadeira de rodas!
Porque elas, simplesmente, o ignoram...

postado por: Cris 01:32

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A noite está negra,
e o teu sono caiu
profundamente no silêncio do meu ser.
Desperta, ó dor de amor,
porque estou aqui fora
e não sei abrir a porta.

As horas esperam,
as estrelas vigiam,
o vento se aquieta,
e o silêncio pesa em meu coração.

Desperta, Amor, desperta!
Enche a minha taça vazia
e agita a noite
com o murmúrio da tua canção.

(Rabindranath Tagore - A Colheita)

postado por: Cris 01:26

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Tema e Voltas

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?

(Manuel Bandeira - Estrela da Vida Inteira)

postado por: Cris 01:20

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Terça-feira, Novembro 05, 2002



As Ilusões

Não é ninguém. É a água.
- Ninguém?
Não é ninguém a água?
- Não
É ninguém. É a flor.
- Ninguém?
Pois não é ninguém a flor?
- Não
É ninguém. O vento.
- Ninguém?
Não é ninguém o vento?
- Não
Há ninguém. Ilusão.
- Ninguém?
E não é ninguém a ilusão?

(Juan Ramón Jimenez - trad. Manuel Bandeira)

postado por: Cris 00:35

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Jazz
(Mário Quintana)

Deixa subirem os sons agudos,
os sons estrídulos do jazz no ar.
Deixa subirem: são repuxos: caem...
Apenas ficarão os arroios correndo
sem rumor dentro da noite.

E junto a cada arroio,
nos campos ermos,
Um anjo de pedra estará postado.

O Anjo de Pedra que está sempre imóvel
por detrás de todas as coisas-
Em meio aos salões de baile,
entre o fragor das batalhas,
nos comícios das praças públicas-
E em cujo olhos sem pupilas,
brancos e parados,
Nada do mundo se reflete.

postado por: Cris 00:34

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Angina Pectoris da Alma
(Clarice Lispector)

Só que dessa não se morre. Mas tudo, menos a angústia, não? Quando o mal vem, o peito se torna estreito, e aquele reconhecível cheiro de poeira molhada naquela coisa que antes se chamava alma e agora não é chamada nada. E a falta de esperança na esperança. E conformar-se sem se resignar. Não se confessar a si próprio porque nem se tem mais o quê. Ou se tem e não se pode porque as palavras não viriam. Não ser o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não se está sendo. E então vem o desamparo de se estar vivo. Estou falando da angústia mesmo, do mal. Porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.

postado por: Cris 00:11

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Domingo, Novembro 03, 2002



Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco
a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo,
um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar
muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros
nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado,
como quem nega a esmola não por falta de boa alma mas
para não ter que desabotoar o casaco.

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho
como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei.
E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa,
não incara a substância de milhares de vozes, a fome
de dizerem-me de milhares de vidas, a paciência de milhões
de almas submissas como a minha ao destino quotidiano,
ao sonho inútil, a esperança sem vestígios.
Nestes momentos meu coração pulsa mais alto
por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior.
Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie
de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reação contra
mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto andar
alto da Rua dos Douradores, sinto-me com sono; olho,
sobre o papel meio escrito, a vida já sem beleza e
o cigarro barato que esquecido estendo sobre o mata-borrão
velho. Aqui eu, neste quarto, a interpelar a vida!,
a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como
os gênios e os célebres! Aqui eu assim!

(Livro do Desassossego - Bernardo Soares)

postado por: Cris 22:39

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Sábado, Novembro 02, 2002



Só uma parte do meu dom está neste mundo. O resto
ficou em meus sonhos.

Tu, que sempre evitas o meu toque, vem até ele em
secreto silêncio, escondendo a tua lamparina.

Eu te reconhecerei pelo tremor da escuridão, pelo
sussurrar dos mundos invisíveis e pela respiração da
praia desconhecida.

Eu te reconhecerei pelo repentino prazer do meu
coração se desmanchando na tristeza das lágrimas.

(Rabindranath Tagore - "Travessia")

postado por: Cris 20:08

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Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencantamento...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristez esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

(Manuel Bandeira, Teresópolis - 1912)

postado por: Cris 19:24

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O Prisioneiro de Chillon

Meus cabelos são brancos... Não que os anos
Passando encanecessem-me, ou que o medo
Súbito no espaço de uma noite
Em brancos vestígios de um fatal segredo
Como a noite gravasse ali seus dedos.
Rasgaram-se-me os membros alquebrados
No tédio vil que não trabalho, oh! não.
Pouso como despojo enferrujado
Desprezado nas lájeas da prisão
Onde qual fruto proibido embalde
Busquei a luz, a terra, a viração.
Religião augusta de meu pai
Por ti sofri tamanha atrocidade...
Ele mart' erguido sobre o poste
Por entre chamas elevou-se a Deus.
Enquanto as pedras de masmorra lúgubre
Os dias guardam dos herdeiros seus.

Nós fomos sete e agora
Agora um resta apenas
De um velho e seis crianças
Tão plácidos, sem penas
E eles que sempre altivos
As frontes levantaram...
Morreram perseguidos
Mas nunca se curvaram...

Um da fogueira dentre as densas lavas
Dois no campo caíram fulminados
Escrevendo com sangue suas crenças
Como seu pai.

Pelo seu Deus, mas homens sossegados
E dos três miseráveis neste cárcere
Só eu, - oh! maldição
Resto sozinho em meio à solidão.

(Byron - trad. Castro Alves)

postado por: Cris 01:10

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1892 - 19...

Haverá pouca coisa a esquecer:
O vôo dos corvos,
Uma rua molhada,
O modo do vento soprar,
O nascer da lua, o pôr do sol,
Três palavras que o mundo sabe,
Pouca coisa a esquecer.

Será bem fácil de esquecer.
A chuva pinga
Na argila rasa
E lava lábios, Olhos e cérebro.
A chuva pinga na argila rasa.

A chuva mansa lavará tudo:
O vôo dos corvos,
O modo do vento soprar,
O nascer da lua, o pôr do sol.
Lavará tudo, até chegar
Aos duros ossos desnudados,
E os ossos, os ossos esquecem.

(Archibald McLeish - trad. Manuel Bandeira)

postado por: Cris 01:01

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A Partida

Mandei que trouxessem o meu cavalo. O empregado não compreendeu minhas ordens. Fui então ao estábulo, encilhei o cavalo e montei. Ouvi na distância o som de uma corneta e perguntei ao empregado o que ela significava. Ele nada sabia, nada tinha ouvido. No portão ele me fez parar e perguntou:
- Aonde vai, senhor? - Não sei - respondi -, apenas para fora daqui, apenas para fora daqui. Fora daqui, nada mais, é o único modo de alcançar meu objetivo.
- Então sabe qual é o seu objetivo? - perguntou ele.
- Sim - respondi. - Acabei de lhe dizer. Fora daqui. Esse é o meu objetivo.

(Descrição de Uma Luta - Franz Kafka)

postado por: Cris 00:55

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Sexta-feira, Novembro 01, 2002



Acontecimento

Haverá na face de todos
um profundo assombro
E na face de alguns
risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão
em lugares desertos
E falarão em voz baixa
em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse
realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências
vão somente até os processos
E já existem nos processos
tantas dificuldades...
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma
que eles não têm
Ouvirão apenas dizer...

Será belo e será ridículo

Haverá quem mude como os ventos

E haverá quem permaneça
na pureza dos rochedos
No meio de todos eu ouvirei
calado e atento, comovido e risonho

Escutando verdades e mentiras

Mas não dizendo nada

Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu
para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas
contêm às vezes as pérolas mais belas

(Vinícius de Moraes)

postado por: Cris 00:55

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